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Estudo com DNA ambiental detecta peixe raro ameaçado no Espírito Santo

Uma tecnologia baseada em análise de DNA ambiental (eDNA) confirmou a presença de um peixe criticamente ameaçado de extinção na bacia do Rio Itapemirim, no Sul do Espírito Santo. Trata-se do Trichogenes claviger, conhecido como bagrinho-de-kaetés, espécie endêmica dos riachos da Mata Atlântica capixaba.

O estudo, intitulado ‘Detection of the critically endangered catfish Trichogenes claviger’, foi capa da revista científica internacional Neotropical Ichthyology em junho. A pesquisa reuniu equipes da PUC Minas, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), do Instituto Nossos Riachos e da Universidade Estadual de Feira de Santana.

Diferentemente dos métodos tradicionais, que usam redes e armadilhas para capturar os animais, a pesquisa aplicou a técnica de eDNA metabarcoding, que analisa vestígios genéticos — como células e tecidos — liberados naturalmente pelos peixes na água. Assim, os cientistas conseguiram identificar a presença da espécie em três dos dez locais investigados sem capturar ou estressar nenhum animal.

A etapa de análise dos dados genéticos coletados em campo foi feita no Laboratório de Genética da Conservação (LGC), do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Meio Ambiente (PPGBio), coordenado pelo professor Daniel Carvalho. O professor Heron Oliveira Hilário, do Departamento de Ciências Biológicas da PUC Minas, foi responsável pelo processamento dos dados gerados pelos sequenciadores de DNA e pela identificação das espécies, feita por meio da comparação das sequências encontradas nas amostras com bancos de referências genéticas.

“Estes resultados podem subsidiar decisões voltadas para a preservação e conservação da espécie, além de guiar outros pesquisadores cujas espécies alvo ainda não sejam caracterizadas molecularmente, algo ainda muito comum na rica biodiversidade brasileira”, afirma o professor Heron Oliveira Hilário. Segundo ele, a partir das novas referências genéticas publicadas, qualquer pesquisador no mundo poderá detectar a espécie, que antes era molecularmente invisível, contribuindo para novos registros de ocorrência.

Além de ampliar o mapa geográfico de distribuição do bagrinho-de-kaetés, a técnica também funcionou como alerta para a conservação da biodiversidade local: as amostras revelaram forte presença de espécies invasoras, como tilápias, que competem por espaço e alimento com a fauna nativa.

O professor do PPGBio destaca ainda o potencial de expansão do método, que pode ser aplicado a qualquer organismo, de bactérias e fungos a insetos e mamíferos, em qualquer ecossistema. “Como todos os seres vivos armazenam sua receita genética em DNA e RNA, todos podem ser detectados utilizando variações desta metodologia. Inclusive, em outros estudos desenvolvidos pelo LGC PUC Minas, estamos padronizando a detecção de bactérias, algas, invertebrados, peixes, répteis, anfíbios, aves e mamíferos a partir de uma única amostra de DNA, caminhando para a caracterização completa da biodiversidade dos nossos ambientes de estudo”, explica.

Além de Heron Oliveira Hilário e Daniel Cardoso Carvalho, integram a equipe de pesquisadores do projeto Juliana Paulo da Silva-Novelli, Ronaldo Fernando Martins-Pinheiro e Luisa Maria Sarmento-Soares.

Redação JS
Redação JS
João Euclides Prata Salgado é fundador do Jornal Savassi, criado em 1985 em Belo Horizonte. Escreve sobre cultura, comportamento e a vida da cidade.