No dia 13 de setembro, quando se comemora o Dia Nacional da Cachaça, a história de duas irmãs de Salinas, no Norte de Minas, ganha ainda mais sentido. Daniele Sarmento e Leila Dayse Sarmento transformaram em negócio o legado deixado pelo pai, Antônio Sarmento, o “Seu Tonico”, criador da Cachaça Salineira em 1989. Hoje, a família soma sete medalhas em concursos nacionais e aposta na exportação.
A virada começou em 2021, quando as irmãs participaram da Expocachaça, a principal feira do setor no país, com uma edição comemorativa de mil garrafas para marcar os 30 anos da Salineira. A ideia inicial era apenas homenagear o pai — o rótulo especial fazia referência à história da marca. Para a surpresa delas, a edição levou o Duplo Ouro da feira. “Nossa história à frente da cachaçaria começou com essa homenagem. Reunimos o que estava no estoque e levamos ao concurso. Sempre víamos este potencial de mercado das cachaças do nosso pai”, conta Daniele.
Sucessão familiar
A gestão passou às mãos das filhas de forma gradual. Em 2019, durante a pandemia, Daniele assumiu as decisões comerciais da marca enquanto Seu Tonico se afastava para cuidar da saúde. Dois anos depois, após o prêmio na Expocachaça, Leila, que atuava no setor bancário, entrou de vez na administração.
O reconhecimento veio acompanhado de um reposicionamento: participação constante em concursos, renovação da identidade visual e lançamento de novos rótulos, mantendo a produção artesanal. “Embarquei no projeto e vi a oportunidade de reformar a fazenda, retomar a produção apostando em novos plantios de canavial e reorganizando o sistema de irrigação”, lembra Leila.
Em 2023, as irmãs conduziram a primeira produção totalmente feita pela nova geração, preservando o processo tradicional — colheita manual da cana e fermentação natural. A primeira carga chegou ao mercado em 2024 e, segundo Daniele, foi bem recebida por quem já conhecia a história da família. “A primeira produção, marcando a continuidade do legado, foi muito bem recebida pelo mercado. Ficamos tão confiantes que já entrou no planejamento a possibilidade de exportação”, afirma.
Nova marca e mais prêmios
Além da Salineira, as irmãs passaram a investir na Valiosa, outra marca da família. Sob a nova gestão, a Valiosa ganhou versões diferentes: a branca, um blend envelhecido em duas madeiras e uma edição em carvalho. O rótulo traz o mapa do município, valorizando a origem da bebida. Hoje, a produção é de cerca de 15 mil litros por ano de cachaças especiais, em escala artesanal.
Os prêmios seguiram chegando. A Valiosa Clássica, branca lançada pela nova gestão, foi medalhista na New Spirits em 2025 e 2026. A Salineira também levou Ouro pelos 35 anos da marca, e a edição retrô em homenagem a Seu Tonico foi premiada. Cada rótulo premiado ganhou identidade própria: a edição retrô preserva elementos visuais do rótulo original, enquanto os demais trazem uma linguagem mais contemporânea. “A qualidade não está apenas nas cachaças novas. Está em todas as edições. É um produto que carrega um legado”, diz Leila.
Aos 87 anos, Seu Tonico acompanha a continuidade da história que começou há mais de três décadas. “Fiquei satisfeito em ver elas seguirem o plano que eu construí. Está sendo muito bom”, define.
Território da cachaça
Salinas é um dos principais polos de cachaça artesanal do país. O município produz cerca de 5 milhões de litros por ano, e a cadeia produtiva movimenta aproximadamente R$ 70 milhões anuais na economia local, entre alambiques, agricultores, comércio, turismo e gastronomia. Desde 2012, a Região de Salinas tem Indicação Geográfica na modalidade Indicação de Procedência, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) — o selo reconhece a ligação entre a reputação da bebida e o território onde ela é feita.



