O Brasil perdeu 18.711 transportadoras no primeiro semestre de 2026. O número vem de levantamento do Serpro feito a partir dos CNPJs da Receita Federal e dos CNAEs ligados ao transporte rodoviário de carga. No mesmo período, o mercado de caminhões novos encolheu ao menor patamar dos últimos cinco anos.
Segundo dados da Anfavea analisados pela ILOS, foram emplacados 21,9 mil caminhões no primeiro trimestre de 2026, volume 21,1% menor que o do mesmo período de 2025, quando saíram 27,7 mil unidades. O resultado ficou 6,7 mil caminhões abaixo do pico da série, alcançado no primeiro trimestre de 2023, com 28,6 mil unidades.
Para o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg), Antonio Luis da Silva Junior, os dois movimentos têm a mesma raiz. “Transportadores encerrando atividade e a queda do emplacamento de caminhões são reflexos da situação econômica do país. O setor está sem capacidade de investimento e os fretes não estão remunerando adequadamente as transportadoras para que possam investir. As empresas vivem um momento muito difícil, com pressão dos embarcadores sobre os valores dos fretes e queda de produtividade”, afirma.
Crédito caro trava a renovação da frota
A retração na compra de caminhões atinge diretamente a renovação das frotas. Na avaliação do presidente do Setcemg, o custo do crédito é um dos principais obstáculos para substituir veículos antigos por modelos novos, dificuldade que se soma à falta de remuneração adequada do frete. “Os juros estão muito altos e o frete não oferece uma remuneração adequada para o capital investido. A transportadora também precisa ter volume de trabalho suficiente para conseguir pagar as prestações de um caminhão novo. Sem essa condição, a renovação da frota fica comprometida”, explica Antonio Luis.
O adiamento da troca de veículos tende a prolongar o uso de caminhões antigos, com efeito sobre despesas de manutenção, disponibilidade da frota e eficiência da operação. Para as empresas, postergar a substituição deixa de ser apenas uma decisão de planejamento e passa a depender da capacidade financeira de assumir novos compromissos.
Setor alerta para risco de apagão logístico
A combinação entre menos empresas em atividade e ritmo fraco de renovação da frota pode reduzir a capacidade de resposta do transporte rodoviário caso a demanda volte a crescer. O setor concentra boa parte da movimentação de cargas no país e depende de estrutura empresarial e de veículos suficiente para acompanhar as oscilações do mercado.
O presidente do Setcemg avalia que a continuidade desse cenário pode comprometer a operação do transporte de cargas nos próximos anos. “Se não houver renovação de frota, investimentos na atividade e uma remuneração adequada, os transportadores não terão capacidade de crescimento nem condições operacionais para acompanhar uma necessidade de aumento da demanda. Isso pode levar a um apagão logístico no futuro. É uma situação muito crítica e perigosa”, alerta.
Para reverter o quadro, o setor defende condições econômicas que devolvam às transportadoras a capacidade de investir, com fretes compatíveis com os custos da operação e acesso a crédito que viabilize a troca dos veículos. Recuperar esse fôlego é o que permitiria às empresas manter as operações, ampliar a frota quando necessário e responder a um eventual aumento da demanda por transporte no país.



