Dois estudos recentes publicados em revistas científicas internacionais mostram caminhos diferentes para usar informações ligadas à escola na avaliação da inteligência. O primeiro indica que testes de QI aplicados na infância ajudam a prever o desempenho escolar futuro, sobretudo em matemática e linguagem. O segundo propõe usar boletins e resultados de provas antigas para estimar o nível intelectual de uma pessoa antes de lesões cerebrais ou demências.
QI e desempenho escolar
Na pesquisa publicada na Frontiers in Psychology, 103 estudantes de 6 a 11 anos passaram por quatro testes de inteligência — IDS, RIAS, SON-R 6-40 e WISC-IV. Três anos depois, os autores obtiveram as notas escolares de 54 participantes. Todos os instrumentos tiveram capacidade significativa de prever a média geral das notas.
A precisão variou conforme a disciplina. IDS, RIAS e SON-R 6-40 previram o desempenho em matemática, enquanto IDS e RIAS também se associaram às notas de linguagem. O WISC-IV previu a média geral, mas não apresentou associação isolada com matemática ou linguagem naquela amostra.
Para o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela, especialista em inteligência e QI, o resultado reforça que a inteligência geral é um dos principais preditores do desempenho acadêmico, mas não determina sozinha as notas. Ele acrescenta que motivação, autocontrole, personalidade, envolvimento escolar e competências socioemocionais também influenciam o resultado ao longo do tempo.
Os autores ponderam que as conclusões são preliminares: apenas 54 crianças completaram a etapa longitudinal, e novas pesquisas com amostras maiores são recomendadas.
Histórico escolar como referência
O segundo estudo, publicado no Archives of Clinical Neuropsychology, propõe usar registros históricos de testes escolares padronizados e exames de acesso à universidade para estimar a inteligência pré-mórbida — o provável nível cognitivo de uma pessoa antes de uma lesão cerebral, de uma demência ou de outra condição que reduza as funções intelectuais. A estimativa serve de referência para comparar o desempenho atual e verificar se houve declínio cognitivo.
Em uma revisão de estudos que compararam desempenho acadêmico com escalas de inteligência de Wechsler, as correlações variaram. Em um dos exemplos, o escore composto do ACT apresentou correlação de 0,87 com o QI total da WAIS-R, indicando forte associação entre os dois resultados.
“Quando avaliamos alguém depois de uma lesão, demência ou outro comprometimento cerebral, precisamos saber de onde essa pessoa partiu. Um QI atual de 110 pode representar estabilidade para alguém que sempre esteve nessa faixa, mas pode representar declínio importante para quem anteriormente funcionava muito acima disso”, explica Fabiano.
Os autores reconhecem que o método ainda precisa de validação empírica adicional e que o QI total é uma estimativa ampla, incapaz de representar isoladamente funções específicas como memória, atenção e resolução de problemas.



