23.8 C
Belo Horizonte
Siga nossas redes sociais:
spot_img

Veja também

Queda de helicóptero com Rick: por que aeronaves são difíceis de localizar

A queda do helicóptero que transportava o cantor Rick, da dupla Rick & Renner, na Serra Catarinense, expôs uma dificuldade que pouco aparece fora da aviação: localizar uma aeronave acidentada mesmo em uma época de GPS, radares, satélites e celulares. A aeronave havia partido de Porto Belo com destino à região de São Joaquim e desapareceu na tarde de segunda-feira (21).

A operação de busca mobilizou o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina e a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Centro de Coordenação de Salvamento Aeronáutico de Curitiba, o SALVAERO Curitiba. Entre os meios empregados estão um helicóptero H-60 Black Hawk e uma aeronave SC-105 Amazonas.

Como uma aeronave é rastreada

Segundo Eduardo Pellizzaro, piloto comercial, especialista em Segurança Operacional pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e pesquisador aeronáutico, o acompanhamento de um voo pode ocorrer por diversos meios e depende também das condições do terreno. “Uma aeronave voando normalmente emite um sinal por meio do transponder, que fornece informações como identificação, altitude e outros dados usados pelos órgãos de controle. Mas a recepção desses sinais também depende da cobertura disponível e das características do terreno”, explica.

Em regiões montanhosas, voos em altitudes menores podem reduzir essa cobertura, porque vales e elevações criam obstáculos entre a aeronave e os sistemas instalados em solo. O relevo acidentado da Serra Catarinense acrescenta uma dificuldade relevante às operações.

Quando a própria aeronave pede socorro

Em uma emergência, o piloto pode selecionar no transponder o código que indica situação de emergência ou fazer uma chamada pelas frequências aeronáuticas. Há ainda um equipamento projetado especificamente para situações de acidente, o ELT — sigla de Emergency Locator Transmitter, ou Transmissor Localizador de Emergência. “O ELT pode ser acionado automaticamente com o impacto ou manualmente pela tripulação. A partir daí, passa a transmitir um sinal de emergência que pode auxiliar os sistemas de busca e salvamento a identificar onde aconteceu o acidente”, afirma Pellizzaro.

Balizas modernas emitem sinais captados pelo sistema internacional de satélites COSPAS-SARSAT. No Brasil, esses alertas são processados pelo Centro Brasileiro de Controle de Missão, o BRMCC, que integra o Sistema de Busca e Salvamento Aeronáutico da FAB.

Quando esses dados não chegam, a área a ser pesquisada aumenta muito. No acidente em Santa Catarina, as equipes trabalharam com pontos separados por dezenas de quilômetros e usaram como referência informações sobre a última comunicação e o último sinal conhecido de celular de um dos ocupantes. “Sem uma comunicação clara de emergência ou um sinal de localização, é necessário reunir as informações disponíveis e ir reduzindo a área provável de busca. Relatos, últimas posições conhecidas e até dados de celulares podem se tornar importantes”, diz o especialista.

Mau tempo e investigação

As condições meteorológicas registradas na região também deverão fazer parte da análise da ocorrência. Santa Catarina enfrentava instabilidade e condições adversas no período do desaparecimento da aeronave. Pellizzaro ressalta, no entanto, que não é tecnicamente correto apontar neste momento uma única causa para a queda. “Um acidente aeronáutico não acontece normalmente por um fator isolado. Existe uma cadeia de eventos. A meteorologia é um dos elementos que precisam ser analisados nesse caso, mas caberá à investigação determinar quais foram os demais fatores envolvidos e qual foi o peso de cada um”, explica.

A apuração técnica é responsabilidade dos órgãos de investigação aeronáutica, que reconstroem a sequência de acontecimentos antes de qualquer conclusão sobre as causas.

A estrutura brasileira de busca e salvamento

Por trás de uma operação como a de Santa Catarina funciona uma estrutura permanente. O Sistema de Busca e Salvamento Aeronáutico (SISSAR) é coordenado pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e cobre uma área de responsabilidade de aproximadamente 22 milhões de quilômetros quadrados, incluindo o território brasileiro e uma extensa faixa do Oceano Atlântico.

Os SALVAERO avaliam as informações recebidas, delimitam as áreas de busca e coordenam os recursos necessários. Entre as unidades especializadas está o Esquadrão Pelicano, sediado em Campo Grande (MS). A aeronave SC-105 Amazonas usada em missões de busca tem sensores eletro-ópticos e infravermelhos, capazes de identificar diferenças térmicas e auxiliar operações inclusive em condições de baixa luminosidade. Helicópteros como o H-60 Black Hawk também podem ser empregados em busca e resgate.

“É uma estrutura extremamente especializada. O Brasil possui uma capacidade de busca e salvamento muito relevante, reunindo aeronaves, sensores, equipes treinadas e diferentes órgãos trabalhando de maneira integrada”, afirma Pellizzaro, para quem episódios como esse mostram uma parte da segurança aérea que só se torna visível em situações extremas. “Existe muita tecnologia embarcada e muita tecnologia em solo, mas a aviação trabalha com camadas de segurança. Quanto mais informações conseguem chegar rapidamente às equipes de busca, menor pode ser a área que precisa ser pesquisada — e, em uma emergência com sobreviventes, tempo é um fator fundamental.”

Redação JS
Redação JS
João Euclides Prata Salgado é fundador do Jornal Savassi, criado em 1985 em Belo Horizonte. Escreve sobre cultura, comportamento e a vida da cidade.