Pacientes em tratamento de câncer que recorrem a cosméticos para lidar com as mudanças na pele, nas unhas e nos cabelos precisam de atenção redobrada na hora de escolher os produtos. Não existe fórmula ideal para todo mundo: a decisão depende do tipo de terapia, das condições da pele e do histórico de cada pessoa. É o que orienta Emile Amador Sigales Emerick, enfermeira, mestre em Saúde do Adulto e professora do curso de Enfermagem da UNIASSELVI.
Segundo ela, rótulos que sugerem segurança não bastam. “As mudanças na pele, nas unhas e nos cabelos são comuns e variam conforme o tipo de câncer, o tratamento e a resposta de cada paciente. Termos como ‘natural’, ‘orgânico’, ‘hipoalergênico’ ou ‘dermatologicamente testado’ não garantem, sozinhos, que o produto seja seguro para todos”, afirma. Por isso, qualquer produto ou procedimento novo deve ser validado pela equipe de saúde que acompanha o caso.
Pele, unhas e cabelos pedem cuidados diferentes
Na pele, os efeitos mais frequentes são descamação, vermelhidão, coceira, manchas, espinhas e maior sensibilidade, sobretudo durante a quimioterapia, a radioterapia e algumas terapias-alvo. “Para aliviar esses efeitos, vale usar todos os dias hidratantes para pele sensível, sabonetes suaves e protetor solar. Banhos mornos, roupas leves e tecidos macios também trazem conforto”, explica a professora.
Ela recomenda evitar esfoliantes, ácidos e produtos com perfume, em especial quando a pele estiver machucada. Para disfarçar manchas, a maquiagem é aliada, desde que não haja feridas e a equipe de saúde libere o uso.
As unhas tendem a ficar frágeis e a mudar de cor e textura. A orientação é mantê-las curtas, evitar batidas e produtos químicos e não retirar a cutícula com força. Alongamentos e unhas postiças ficam para depois, nas fases de maior fragilidade; o esmalte pode entrar na rotina se não houver feridas nem sinais de infecção.
No couro cabeludo, podem surgir ressecamento, descamação, coceira e sensibilidade, e a queda dos fios é comum em alguns tipos de quimioterapia. “Os cuidados incluem lavar o couro cabeludo com delicadeza, evitar fontes de calor e proteger a cabeça do sol e de temperaturas extremas. Se os fios caírem, perucas, próteses capilares, lenços, turbantes e chapéus protegem e disfarçam a falta deles”, orienta.
Sobrancelhas e cílios também podem rarear ou cair, e nesses casos a maquiagem ajuda a redesenhar o rosto. Micropigmentação, extensão de cílios e algumas técnicas capilares só devem ser feitas com segurança clínica e aval da equipe de saúde.
O que conferir nos rótulos
A regra é preservar a proteção natural da pele e reduzir o risco de irritação. “Prefira fórmulas simples, suaves, com poucos ingredientes e, se possível, sem perfume. Glicerina, ceramidas, ureia, pantenol e ácido hialurônico hidratam e costumam ser bem tolerados”, recomenda Emile.
Alguns componentes exigem atenção, principalmente na pele sensível: presença de álcool; fragrâncias e óleos essenciais concentrados; ácidos esfoliantes e retinoides; produtos muito adstringentes ou abrasivos; e alguns conservantes e corantes. Cremes muito pesados, que abafam a pele, também podem prejudicar áreas irritadas pela radioterapia, com feridas ou infecção. Vale ainda conferir a validade, o estado da embalagem e a forma de guardar o produto.
No protetor solar, o ideal é que seja de amplo espectro (UVA e UVB) e com FPS 30 ou mais. Chapéus, roupas e menos tempo de exposição ao sol completam a proteção. As versões com cor ajudam quem tem manchas, porque também bloqueiam a luz visível. Nas áreas que recebem radioterapia, a indicação cabe à equipe multidisciplinar de saúde.
Teste antes e fique atento aos sinais
O teste de contato ajuda a prever reações: basta aplicar um pouco do produto em uma pequena área de pele sem feridas e observar por 24 a 48 horas. “Em pele que recebeu radioterapia, machucada, inflamada ou com infecção, o teste só deve ser feito com orientação de profissional da saúde”, alerta a docente.
Vermelhidão que não passa, coceira, ardor forte, inchaço, dor, bolhas ou descamação são sinais para interromper o uso na hora. Inchaço no rosto, falta de ar ou tontura pedem atendimento médico imediato. Em caso de reação persistente ou inesperada, o paciente deve avisar a equipe de saúde antes de voltar a usar o produto.
Idas à manicure, ao salão e a clínicas de estética precisam se adaptar ao momento do tratamento. “A dica é levar os próprios materiais e não compartilhá-los. Isso reduz o risco de infecção”, orienta Emile. Ela recomenda adiar os procedimentos quando houver infecção, feridas, sangramento ou queda das células de defesa e das plaquetas, identificada nos exames de sangue. Técnicas que causam cortes, atrito, calor excessivo ou irritação química ficam de fora, em especial nas áreas tratadas com radioterapia; química nos cabelos, depilação, laser, peelings e microagulhamento dependem de avaliação prévia da equipe de saúde.
Antes de testar um cosmético ou procedimento novo, o paciente deve informar à equipe de saúde o diagnóstico, o tratamento e os remédios em uso; alergias, reações na pele e procedimentos estéticos recentes; mudanças recentes na pele, nas unhas e nos cabelos, além de feridas, infecções ou sangramentos; e o nome do produto, seus ingredientes, finalidade, forma e frequência de uso.
“Essas mudanças podem afetar muito a autoestima e o bem-estar emocional. Acolhimento, orientação e autocuidado, com apoio de uma equipe multiprofissional, trazem mais conforto, segurança e qualidade de vida ao tratamento”, ressalta.



