A impressão 3D já é usada na medicina para fabricar próteses personalizadas, guias cirúrgicos e modelos anatômicos empregados no planejamento de procedimentos complexos. Agora, a tecnologia avança para um novo campo: o treinamento de cirurgiões antes mesmo da primeira cirurgia em pacientes.
Um estudo brasileiro publicado em 2026 na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões mostrou que estudantes de medicina que treinaram previamente em um simulador de cirurgia endoscópica da coluna, produzido em impressora 3D, apresentaram desempenho significativamente superior em relação aos colegas que seguiram o método tradicional de aprendizagem.
Entre os resultados, os pesquisadores observaram redução de 43,7% no tempo necessário para realizar o procedimento, 75,9% menos intervenções do supervisor durante a cirurgia e diminuição de 85,3% do chamado look-down — comportamento comum entre iniciantes, caracterizado pelo desvio frequente do olhar entre o monitor e o campo operatório. Os estudantes treinados também alcançaram notas significativamente superiores na avaliação internacional GOALS, utilizada para medir habilidades em cirurgia minimamente invasiva.
Para o cirurgião de coluna Dr. Álynson Larocca Kulcheski, um dos autores da pesquisa e referência nacional em cirurgia endoscópica da coluna, a simulação responde a uma das maiores dificuldades desse tipo de procedimento. “Na cirurgia endoscópica, o cirurgião não observa diretamente o campo operatório. Toda a orientação acontece por meio das imagens transmitidas pela câmera, enquanto os instrumentos são manipulados em um espaço bastante reduzido. Essa adaptação exige treinamento. O simulador permite desenvolver essa coordenação antes da cirurgia em pacientes, reduzindo a curva de aprendizado em um ambiente seguro”, afirma.
Um simulador de R$ 100
Os resultados reforçam uma linha de pesquisa iniciada pela mesma equipe em 2025. Em estudo publicado na revista Coluna/Columna, os pesquisadores apresentaram um simulador seco de coluna lombar produzido em impressora 3D por cerca de R$ 100 — uma fração do custo de simuladores virtuais ou de treinamentos realizados em laboratórios especializados. O equipamento foi desenvolvido para democratizar o acesso ao treinamento em cirurgia minimamente invasiva, permitindo que universidades, hospitais e programas de residência ofereçam prática repetitiva sem depender de estruturas de alto custo.
Segundo Arthur Moro, CEO da OrtoArt Materiais Cirúrgicos, essa mudança amplia o próprio conceito de inovação dentro da medicina. “Durante muito tempo, a inovação esteve concentrada no desenvolvimento de implantes, instrumentos e equipamentos cada vez mais sofisticados. Hoje entendemos que ela também passa pela forma como os profissionais são preparados para utilizar essas tecnologias. Quando investimos em treinamento estruturado, aumentamos a segurança, reduzimos a curva de aprendizado e potencializamos os resultados que essas soluções podem entregar”, diz.
Segurança começa antes do centro cirúrgico
Os pesquisadores ressaltam que o estudo avaliou exclusivamente a transferência de habilidades técnicas — e não desfechos clínicos em pacientes. Ainda assim, os resultados reforçam um movimento observado em importantes centros de formação médica ao redor do mundo: incorporar a simulação como etapa essencial da educação cirúrgica.
A pesquisa envolveu 40 estudantes de medicina, divididos aleatoriamente entre grupo treinado e grupo controle. Após o treinamento, todos realizaram uma endoscopia diagnóstica supervisionada, gravada e posteriormente analisada por um avaliador que desconhecia quais participantes haviam utilizado o simulador. Os ganhos apareceram de forma consistente em praticamente todos os indicadores avaliados.
“Nenhum simulador substitui a residência médica ou a experiência adquirida ao longo da carreira. Mas ele oferece a oportunidade de repetir procedimentos, corrigir falhas e desenvolver confiança antes de entrar no centro cirúrgico. Quanto melhor preparado chega o profissional, maior tende a ser a segurança durante sua formação”, conclui Kulcheski.
Entre os principais resultados do estudo estão: 43,7% de redução no tempo do procedimento; 75,9% menos intervenções dos supervisores; 85,3% menos episódios de look-down; desempenho significativamente superior na avaliação técnica GOALS; e 100% dos participantes defenderam a incorporação da simulação ao ensino médico.



