Belo Horizonte- MG Depois de duas edições marcadas pelo distanciamento e pelas experiências no ambiente virtual, o FETO – Festival Estudantil de Teatro retoma o formato presencial em Belo Horizonte. A 23ª edição ocupa a cidade de 27 de outubro a 1º de novembro com dez espetáculos vindos do Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Bahia, Goiás e Minas Gerais, além de oficinas e rodas de conversa gratuitas.
O tema deste ano é “Gostoso é estar em bando!”, escolha que orienta tanto a seleção dos trabalhos quanto as atividades de formação. Criado em 1999, o festival tem entre suas marcas a proposta de transformar o teatro em espaço de convivência, experimentação e aprendizado para estudantes, professores e profissionais da cena.
Espetáculo de abertura vem de Fortaleza
A noite de abertura, na terça-feira (27/10), fica com “Há uma festa sem começo que não termina com o fim”, do grupo Pavilhão da Magnólia, de Fortaleza (CE), que soma 21 anos de trajetória. Em cena, quatro atores – Eliel Carvalho, Jota Júnior Santos, Nelson Albuquerque e Silvianne Lima – conduzem uma pesquisa de linguagem que dialoga com o documentário e a palestra-performance.
A direção e a dramaturgia são de Francis Wilker, com codireção e dramaturgismo de Thereza Rocha e interlocução dramatúrgica de Ricardo Cabaça, artista português radicado em Lisboa. O trabalho atravessa questões como ancestralidade, gênero, racismo e o próprio fazer artístico, e se apresenta como um manifesto em defesa da democracia diante do avanço de discursos de extrema-direita pelo mundo.
Programação e serviço
Os espetáculos se dividem em duas categorias: Teatro na Escola, para criações de estudantes do ensino fundamental, médio ou superior que não cursam as artes da cena, e Escola de Teatro, voltada a alunos de cursos superiores ou técnicos em Artes Cênicas. Entre os selecionados estão “Grão” (SP), sobre juventude rural e luta pela terra, e “Ganga” (SP), que articula teatro documentário, narrativa épica e cantos para discutir mineração, colonialidade e racismo estrutural a partir de pesquisas sobre Mariana e Brumadinho.
Da Bahia vem “Só + Duas Histórias Latino-americanas e Fim”, que atualiza textos de Augusto Boal com humor, música e ironia para tratar de censura, desigualdade e relações de poder. O Rio de Janeiro comparece com “Cabaré Cibernético”, que aproxima a linguagem do cabaré da era digital e das redes sociais, e com “SANKOFA – Um Menino Brasileiro”, que mistura música, dança e teatro em uma narrativa sobre ancestralidade e resiliência inspirada em tradições populares como o Bumba Meu Boi, o Maculelê, a Capoeira, as Lavadeiras e a Congada.
De Goiás chega “O que cabe no caderno? AdoleSER”, espetáculo de dança sobre as pressões do crescimento, o medo de não dar conta e a busca por apoio. Minas Gerais participa com o clássico “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, revisitado em uma narrativa sobre fé, integridade e intolerância, e com “Receita”, que discute violência de gênero, sobretudo a doméstica, em um recorte de classe e também aborda a precariedade do transporte público metropolitano e o acesso à capital. Como programação associada, o festival apresenta “O Pequeno Príncipe Negro”, inspirado na obra de Rodrigo França e criado pelos alunos do Núcleo de Formação em Teatro do Sesc Cenário.
Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 e podem ser retirados na plataforma Sympla ou na bilheteria dos teatros. Todas as sessões contam com acessibilidade em Libras. A participação nas oficinas e nas rodas de conversa é gratuita, e a programação completa e as inscrições estão disponíveis no site do festival.
Curadoria recebeu 115 propostas de 14 estados
Nesta edição, o FETO recebeu 115 propostas de 14 estados brasileiros, reunindo trabalhos de diferentes territórios, contextos de formação e linguagens. A curadoria é assinada por Charles Valadares, Brenda Campos e Gláucia Vandeveld.

“O tema Gostoso é estar em bando não parte da ideia de um grupo homogêneo, mas de um espaço onde diferentes pessoas, trajetórias, territórios e maneiras de fazer teatro possam conviver”, afirma Charles Valadares, que também destacou o diálogo das obras com a literatura, a memória e o pertencimento.
Para Brenda Campos, o que mais chamou atenção na seleção foi o envolvimento dos grupos com seus próprios trabalhos. “Mais do que tudo, as obras selecionadas se destacaram pela força com que o bando que as defende se apresentou, dando a ver o envolvimento das pessoas com a obra”, observa a atriz e pedagoga.
Olhares, oficinas e CaFETO
Os tradicionais bate-papos do festival, chamados de Olhares, comentam os trabalhos apresentados. Na categoria Escola de Teatro, os debates são abertos ao público; na Teatro na Escola, ficam restritos aos participantes, por envolverem estudantes do ensino básico. A comissão artística reúne nomes como Alan Rodrigues, Rodrigo Antero, Raquel Castro, Marcos Alexandre, Marina Viana e Gil Amâncio.
A programação formativa inclui duas oficinas: “Gestão Colaborativa nas Artes da Cena”, com a gestora cultural Lena Cunha, voltada a estudantes e profissionais da área, e “Interpretação para Cinema e TV para crianças e adolescentes”, ministrada pelo diretor de teatro e cinema Byron O’Neill, um dos idealizadores do FETO.
Já o CaFETO, espaço de convivência e troca de saberes, traz neste ano o tema “Criar em bando” e propõe uma conversa sobre processos criativos coletivos com os artistas evandro nunes, Lira Ribas e Kelly Crifer. Durante o encontro, uma instalação com varal exibe críticas e resenhas impressas sobre os trabalhos apresentados.
O público também terá acesso, no site do festival, a críticas e resenhas assinadas pelo pesquisador Igui Leal e pela atriz Bramma Bremmer, textos que buscam estimular a reflexão sobre estética, criação e processos artísticos.
Para a coordenação, a volta ao presencial tem significado especial. “O FETO, desde a sua criação (1999), busca proporcionar aos estudantes um espaço de troca e compartilhamento, no qual possam assistir aos trabalhos uns dos outros, conversar sobre seus processos de criação e formação e celebrar juntos o teatro”, comenta a atriz e professora Gláucia Vandeveld.
“Cada edição é atravessada por novos estudantes, de diferentes territórios, vivências e formas de fazer e pensar o teatro. Estar novamente olho no olho nos permite reconhecer essas diferenças, criar vínculos e ampliar as trocas”, afirma Bruna Bof, coordenadora geral do festival.



